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A pesca em rio no Acre já não se sustenta sozinha

O que mudou nos rios do Acre nos últimos 30 anos, o que isso faz com o peixe e com a renda do pescador artesanal, e por que a regra do seguro-defeso, que proíbe qualquer outra renda, ficou para trás.

Apuração: 05/10/2026 Seis frentes de investigação; séries da ANA, do Inpe e do MapBiomas baixadas e recalculadas

A resposta curta

Os rios do Acre estão mais secos na vazante, a floresta da beira do rio encolheu e as espécies mais valiosas estão em queda na Amazônia ocidental. Os pescadores que foram ouvidos dizem que a pesca sozinha não dá mais para viver. Quem sobrevive faz bico, e a lei do seguro-defeso trata esse bico como motivo para cortar o benefício.

10 de 10anos, de 2016 a 2025, com o rio Acre abaixo de 2 m em Rio Branco; de 1967 a 1997, nenhum
2,5×mais dias de vazão muito baixa por ano no alto rio Acre e no Purus, comparando 1990–2004 com 2016–2025
18.882 km²de floresta derrubada no Acre de 1988 a 2025; a pastagem foi de 2,1% para 14,4% do estado
42%dos pescadores ouvidos em Cruzeiro do Sul dizem que está difícil sobreviver só da pesca
A maior lacuna: o Acre não conta o peixe

O estado não tem estatística de captura, e o próprio governo estadual admite isso por escrito. Por isso a queda do peixe não pode ser provada com uma série acreana. A prova vem de rios vizinhos, de listas oficiais e dos pescadores. Contar o desembarque é a primeira medida para que a próxima discussão tenha número do Acre.

Os rios estão secando?

Sim, na vazante, e a mudança é medida. Os dados diários de 10 estações da Agência Nacional de Águas, de 1967 a 2026, foram baixados e recalculados para esta página confirmado.

Cota mínima anual média, em centímetros. Fonte: ANA, cálculo próprio
Estação1967–891990–042005–152016–25Tendência
Rio Acre em Rio Branco307256187138−39 cm por década
Rio Acre em Xapuri277260212164−26 cm por década
Rio Acre em Brasiléia21818913798−35 cm por década
Purus em Manoel Urbano382364380310−14 cm por década
Iaco no Seringal São José285315279227−17 cm por década
Envira em Feijó387402356348−15 cm por década
Um cuidado com a régua de Rio Branco

Para a mesma vazão baixa, a régua de Rio Branco marca hoje cerca de metade do que marcava nos anos 1970. A vazão mínima na capital não tem tendência de queda. Então a régua exagera a seca ali, por causa do leito, da extração de areia ou de troca de referência, o que não foi verificado. A prova de que o rio está mais seco vem da vazão no alto Acre e no Purus. No Juruá e no Tarauacá a régua mudou de referência e não serve para medir seca.

Por que isso pesa no peixe. No baixo Amazonas, uma vazante forte reduz a captura dois a três anos depois, e o pulso da água junto com o esforço de pesca explica 80% da variação da captura (Castello e outros, 2015) confirmado. Não há estudo igual no Acre. Aplicado aqui, a sequência de secas de 2023 a 2026 sugere captura menor até 2029. Essa projeção é interpretação, de confiança média.

O clima está por trás. O aquecimento tornou a seca de 2023 na Amazônia cerca de 30 vezes mais provável; com 2 °C a mais, ela voltaria a cada 10 a 15 anos (World Weather Attribution, 24/01/2024) confirmado. Os pluviômetros do Acre, porém, não mostram queda de chuva, exceto em Xapuri. O que mudou foi o rio, mais do que a chuva medida.

A floresta da beira do rio

O desmatamento é a causa lenta e de fundo. Ele não explica a crise do ano, que é a seca, mas tira do rio a capacidade de produzir peixe.

Desmatamento no Acre. Fonte: Inpe, Prodes, e MapBiomas
IndicadorValor
Floresta derrubada de 1988 a 202518.882 km² confirmado
Média por ano, 2010 a 2018301 km²
Média por ano, 2019 a 2022779 km², com pico de 889 km² em 2021
2025324 km²; os alertas de 2026 indicam nova queda
Pastagemde 2,1% do estado em 1985 para 14,4% em 2025
Floresta alagável mapeada−19,8% de 1985 a 2025
Onde se desmata hojeFeijó, Sena Madureira, Tarauacá e Manoel Urbano, nas bacias do Envira, do Purus, do Iaco e do Tarauacá

A ligação com o peixe é medida, fora do Acre. Em 20 lagos do baixo Amazonas, a biomassa de peixes, inclusive a das espécies comerciais, sobe com a floresta alagada em volta (Arantes e outros, 2019) confirmado. O tambaqui come fruto e semente da floresta na cheia. No Acre, um estudo de 2026 em 35 igarapés das reservas Chico Mendes e Cazumbá-Iracema achou menos espécies onde a mata ciliar foi perdida parcial.

Há contraponto: um estudo com 638 pescadores no Tapajós, no Trombetas e no Tocantins não achou mais captura onde havia mais floresta parcial. A frase segura é esta: perder floresta reduz o peixe que o rio produz, mas não é a única causa da queda.

O peixe está diminuindo?

Nas espécies que mais valem, sim, na Amazônia ocidental. No Acre não há série para confirmar.

Evidência de queda por espécie
EspécieO que se mediuOndeConfiança
TambaquiEntrou como espécie vulnerável na lista oficial de 2026, por redução de 30% a 40% da população em três gerações. Peixe de cultivo licenciado fica de fora (nota do Ministério do Meio Ambiente).Brasilconfirmado
TambaquiPerto de Manaus tem cerca de metade do tamanho que tem mil quilômetros rio acima, segundo cerca de 400 pescadores.Purus, rio que nasce no Acreparcial
TambaquiEra a espécie mais abundante até os anos 1980; aparecem tambaquis de 20 a 30 cm à venda, quando o mínimo é 55 cm (Santos e Santos, 2005).Amazôniaconfirmado
DouradaCaiu de 5,5% para 0,4% da captura depois das usinas do Madeira; a captura por pescador caiu de 0,78 para menos de 0,13 kg por dia (Van Damme e outros, 2019).Alto Madeira, Bolíviaconfirmado
MatrinxãTambém listada como vulnerável em 2026.Brasilparcial
PirarucuLagos com manejo têm média de 305 pirarucus; lagos de acesso livre, 9.Juruá, Amazonasparcial

O pirarucu manejado é a exceção que confirma a regra: onde a comunidade controla o lago, o peixe volta e a renda sobe. É renda de manejo, não de pesca livre no rio.

Mercúrio, garimpo e barragens

Pesam menos na renda do pescador acreano do que se costuma dizer, mas pesam na saúde e na venda do peixe.

A renda do pescador

Os estudos que ouviram pescadores mostram a mesma coisa: menos peixe, mais esforço e renda montada com bicos.

O que os estudos mediram
OndeO que mediram
Cruzeiro do Sul, Acre, 2023–202421 pescadores. Renda média de R$ 1.200 por mês, 85% com auxílio do governo, 42% dizem que é difícil sobreviver só da pesca. Bicos citados: feira, conserto de redes e cascos, obra, marcenaria, pintura, roça, barqueiro e turismo (Santos e Oliveira, 2025) confirmado
Teotônio, RondôniaA renda mensal da pesca caiu 74,5% em dez anos, de R$ 2.659 para R$ 678 (Pinto e outros, 2022) confirmado
Humaitá, Amazonas, 2017Todos os 28 pescadores ouvidos percebem queda de captura. "Onde a gente pegava 200 a 300 kg por viagem, hoje pego só 50 kg" confirmado
Baixo Purus, AmazonasNa cheia, a captura por esforço cai 73%. Um em cada três domicílios pula refeição parcial
Tefé, Amazonas, seca de 2023Captura cerca de 40% menor, venda de farinha 80% menor, o preço do surubim dobrou e 209 botos morreram (Fleischmann e outros, 2025) confirmado

O seguro-defeso pesa, mas não alcança todos. No ciclo 2025/26, ele pagou R$ 34,1 milhões a 10.638 pescadores do Acre, cerca de R$ 3.207 por pessoa parcial. Isso é menos da metade dos 21.777 com registro ativo. Para quem recebe, o seguro é entre um quinto e metade da renda do ano, conforme o número de parcelas; essa conta é estimativa.

Duas vozes que faltam

Não há fala literal de pescador acreano em estudo publicado. E as pescadoras são 47,5% do registro no Acre, mas o único estudo local não ouviu nenhuma. Ouvir as colônias, com método e por escrito, é o passo que mais fortalece o argumento.

O que a lei não enxerga

A lei do seguro-defeso supõe que, fora dos quatro meses de defeso, o rio sustenta a família. Por isso proíbe qualquer renda que não venha da atividade pesqueira, de um defeso ao seguinte. A página Seguro-defeso e projetos de renda detalha essa regra.

A própria lei já admitiu duas vezes que essa suposição pode falhar.

Na prática, os pescadores de Cruzeiro do Sul vivem dos bicos que a regra do seguro trata como "outra fonte de renda". A regra não impede o bico: empurra o pescador para a informalidade e para a declaração falsa.

A proposta

Uma saída proporcional, que mantém a pesca como principal meio de vida e usa réguas que a lei brasileira já conhece. Redação sugerida pela investigação, para a Lei 10.779; é proposta, não norma.

  1. Não é outra renda o beneficiamento e a venda do próprio peixe, pelo preço ou pelas sobras da cooperativa. Também não é o cultivo familiar de peixe, que a Lei 11.959/2009 já chama de atividade pesqueira. Nem o pagamento por serviço ambiental ligado à pesca, o trabalho de até 120 dias por ano e os auxílios de emergência.
  2. Teto: cultivo e trabalho somados até um salário mínimo de média por mês.
  3. Emergência: em município com seca ou cheia reconhecida pela União, cai o limite de dias, e o período conta como caso justificado de impossibilidade de pescar.
  4. Fim do corte automático: renda declarada e registrada nas bases não basta, sozinha, para negar ou cancelar o seguro.

A régua de 120 dias é a que a Previdência já usa para o segurado especial (Lei 8.213/1991, art. 11, § 9º, III). As Diretrizes da FAO para a pesca de pequena escala, no item 6.8, recomendam apoiar "oportunidades complementares e alternativas de geração de rendimento" (FAO) confirmado.

Dois caminhos
CaminhoComo
RápidoPedir ao conselho que regula o seguro (Codefat) que defina "caso justificado de impossibilidade" e diga quando seca, cheia e falta de peixe se enquadram. A lei garante às entidades de pescadores voz na elaboração dessas normas.
LegislativoEmenda ao PL 7.144/2025, que está na Comissão de Trabalho da Câmara. O substitutivo aprovado na Comissão de Agricultura já admite trabalho temporário no defeso até um salário mínimo, mas não alcança cultivo nem cooperativa.

O que medir para sustentar a tese

O que está comprovado e o que é tendência

Grau de confiança das conclusões
ConclusãoGrau
Vazante mais baixa e mais longa no alto rio Acre e no Purus; recordes em 2024comprovado
Desmatamento alto desde 2019 e pastagem em alta contínuacomprovado
Tambaqui oficialmente vulnerável; dourada em queda no Madeiracomprovado
Pescadores da região relatam menos peixe e renda menor, e vivem de bicoscomprovado
Vazantes extremas mais frequentes e cheias maiores nos próximos anostendência provável
Captura menor no Acre até 2029 pela sequência de secas de 2023 a 2026tendência provável
Queda do peixe no Acre medida em série próprianão medido
Menos chuva no Acrenão comprovado