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A pesca em rio no Acre já não se sustenta sozinha
O que mudou nos rios do Acre nos últimos 30 anos, o que isso faz com o peixe e com a renda do pescador artesanal, e por que a regra do seguro-defeso, que proíbe qualquer outra renda, ficou para trás.
A resposta curta
Os rios do Acre estão mais secos na vazante, a floresta da beira do rio encolheu e as espécies mais valiosas estão em queda na Amazônia ocidental. Os pescadores que foram ouvidos dizem que a pesca sozinha não dá mais para viver. Quem sobrevive faz bico, e a lei do seguro-defeso trata esse bico como motivo para cortar o benefício.
O estado não tem estatística de captura, e o próprio governo estadual admite isso por escrito. Por isso a queda do peixe não pode ser provada com uma série acreana. A prova vem de rios vizinhos, de listas oficiais e dos pescadores. Contar o desembarque é a primeira medida para que a próxima discussão tenha número do Acre.
Os rios estão secando?
Sim, na vazante, e a mudança é medida. Os dados diários de 10 estações da Agência Nacional de Águas, de 1967 a 2026, foram baixados e recalculados para esta página confirmado.
| Estação | 1967–89 | 1990–04 | 2005–15 | 2016–25 | Tendência |
|---|---|---|---|---|---|
| Rio Acre em Rio Branco | 307 | 256 | 187 | 138 | −39 cm por década |
| Rio Acre em Xapuri | 277 | 260 | 212 | 164 | −26 cm por década |
| Rio Acre em Brasiléia | 218 | 189 | 137 | 98 | −35 cm por década |
| Purus em Manoel Urbano | 382 | 364 | 380 | 310 | −14 cm por década |
| Iaco no Seringal São José | 285 | 315 | 279 | 227 | −17 cm por década |
| Envira em Feijó | 387 | 402 | 356 | 348 | −15 cm por década |
- Recordes recentes. As oito menores marcas da régua de Rio Branco são todas de 2016 em diante. A menor foi 1,23 m, em 21/09/2024. Em 2024 o rio Acre teve a menor vazão já medida em Xapuri e em Brasiléia, e o Iaco e o Abunã também.
- Mais dias de rio baixo. Em Brasiléia e no Purus, os dias por ano com vazão muito baixa passaram de 22 a 29, entre 1990 e 2004, para 55 a 65, entre 2016 e 2025. A vazão mínima no alto rio Acre cai 12% por década.
- Cheias maiores também. No Acre, no Juruá e no Envira as cheias cresceram de 3% a 8% por década. O rio ficou mais extremo nos dois sentidos.
- Emergência três vezes em quatro anos. O Acre teve emergência por seca reconhecida em 2023 e de novo nos 22 municípios em 19/08/2026 parcial; o Ministério Público Federal cita seca severa em 2025.
Para a mesma vazão baixa, a régua de Rio Branco marca hoje cerca de metade do que marcava nos anos 1970. A vazão mínima na capital não tem tendência de queda. Então a régua exagera a seca ali, por causa do leito, da extração de areia ou de troca de referência, o que não foi verificado. A prova de que o rio está mais seco vem da vazão no alto Acre e no Purus. No Juruá e no Tarauacá a régua mudou de referência e não serve para medir seca.
Por que isso pesa no peixe. No baixo Amazonas, uma vazante forte reduz a captura dois a três anos depois, e o pulso da água junto com o esforço de pesca explica 80% da variação da captura (Castello e outros, 2015) confirmado. Não há estudo igual no Acre. Aplicado aqui, a sequência de secas de 2023 a 2026 sugere captura menor até 2029. Essa projeção é interpretação, de confiança média.
O clima está por trás. O aquecimento tornou a seca de 2023 na Amazônia cerca de 30 vezes mais provável; com 2 °C a mais, ela voltaria a cada 10 a 15 anos (World Weather Attribution, 24/01/2024) confirmado. Os pluviômetros do Acre, porém, não mostram queda de chuva, exceto em Xapuri. O que mudou foi o rio, mais do que a chuva medida.
A floresta da beira do rio
O desmatamento é a causa lenta e de fundo. Ele não explica a crise do ano, que é a seca, mas tira do rio a capacidade de produzir peixe.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Floresta derrubada de 1988 a 2025 | 18.882 km² confirmado |
| Média por ano, 2010 a 2018 | 301 km² |
| Média por ano, 2019 a 2022 | 779 km², com pico de 889 km² em 2021 |
| 2025 | 324 km²; os alertas de 2026 indicam nova queda |
| Pastagem | de 2,1% do estado em 1985 para 14,4% em 2025 |
| Floresta alagável mapeada | −19,8% de 1985 a 2025 |
| Onde se desmata hoje | Feijó, Sena Madureira, Tarauacá e Manoel Urbano, nas bacias do Envira, do Purus, do Iaco e do Tarauacá |
A ligação com o peixe é medida, fora do Acre. Em 20 lagos do baixo Amazonas, a biomassa de peixes, inclusive a das espécies comerciais, sobe com a floresta alagada em volta (Arantes e outros, 2019) confirmado. O tambaqui come fruto e semente da floresta na cheia. No Acre, um estudo de 2026 em 35 igarapés das reservas Chico Mendes e Cazumbá-Iracema achou menos espécies onde a mata ciliar foi perdida parcial.
Há contraponto: um estudo com 638 pescadores no Tapajós, no Trombetas e no Tocantins não achou mais captura onde havia mais floresta parcial. A frase segura é esta: perder floresta reduz o peixe que o rio produz, mas não é a única causa da queda.
O peixe está diminuindo?
Nas espécies que mais valem, sim, na Amazônia ocidental. No Acre não há série para confirmar.
| Espécie | O que se mediu | Onde | Confiança |
|---|---|---|---|
| Tambaqui | Entrou como espécie vulnerável na lista oficial de 2026, por redução de 30% a 40% da população em três gerações. Peixe de cultivo licenciado fica de fora (nota do Ministério do Meio Ambiente). | Brasil | confirmado |
| Tambaqui | Perto de Manaus tem cerca de metade do tamanho que tem mil quilômetros rio acima, segundo cerca de 400 pescadores. | Purus, rio que nasce no Acre | parcial |
| Tambaqui | Era a espécie mais abundante até os anos 1980; aparecem tambaquis de 20 a 30 cm à venda, quando o mínimo é 55 cm (Santos e Santos, 2005). | Amazônia | confirmado |
| Dourada | Caiu de 5,5% para 0,4% da captura depois das usinas do Madeira; a captura por pescador caiu de 0,78 para menos de 0,13 kg por dia (Van Damme e outros, 2019). | Alto Madeira, Bolívia | confirmado |
| Matrinxã | Também listada como vulnerável em 2026. | Brasil | parcial |
| Pirarucu | Lagos com manejo têm média de 305 pirarucus; lagos de acesso livre, 9. | Juruá, Amazonas | parcial |
O pirarucu manejado é a exceção que confirma a regra: onde a comunidade controla o lago, o peixe volta e a renda sobe. É renda de manejo, não de pesca livre no rio.
Mercúrio, garimpo e barragens
Pesam menos na renda do pescador acreano do que se costuma dizer, mas pesam na saúde e na venda do peixe.
- Mercúrio no peixe vendido em Rio Branco. No estudo da Fiocruz de 2023, 35,9% das amostras passaram do limite de 0,5 micrograma por grama, o segundo pior índice entre seis estados. O consumo estimado chega a 9 vezes a dose segura para a mulher em idade fértil e a 31 vezes para a criança pequena (nota técnica Fiocruz, maio de 2023) confirmado. Parte desse peixe vem de Boca do Acre e de Porto Velho.
- No Purus, em Manoel Urbano, 8 de 18 espécies passaram de 0,5 micrograma por grama, com o sedimento limpo (Castro e outros, 2016) confirmado. A origem provável é natural ou do desmatamento, não de garimpo local; isso é interpretação.
- Garimpo. Não há registro de garimpo ativo em rio do Acre não verificado. Ele existe no Madeira e em Madre de Dios, no Peru.
- Barragens. As usinas do Madeira derrubaram a dourada naquele rio. Mas os rios Acre, Purus e Juruá descem para o Solimões, sem passar pelas barragens. Só o Abunã, na divisa com Rondônia, é afetado.
- Esgoto. Só 19,9% da população de Rio Branco tem coleta de esgoto (Trata Brasil, 2025) confirmado.
A renda do pescador
Os estudos que ouviram pescadores mostram a mesma coisa: menos peixe, mais esforço e renda montada com bicos.
| Onde | O que mediram |
|---|---|
| Cruzeiro do Sul, Acre, 2023–2024 | 21 pescadores. Renda média de R$ 1.200 por mês, 85% com auxílio do governo, 42% dizem que é difícil sobreviver só da pesca. Bicos citados: feira, conserto de redes e cascos, obra, marcenaria, pintura, roça, barqueiro e turismo (Santos e Oliveira, 2025) confirmado |
| Teotônio, Rondônia | A renda mensal da pesca caiu 74,5% em dez anos, de R$ 2.659 para R$ 678 (Pinto e outros, 2022) confirmado |
| Humaitá, Amazonas, 2017 | Todos os 28 pescadores ouvidos percebem queda de captura. "Onde a gente pegava 200 a 300 kg por viagem, hoje pego só 50 kg" confirmado |
| Baixo Purus, Amazonas | Na cheia, a captura por esforço cai 73%. Um em cada três domicílios pula refeição parcial |
| Tefé, Amazonas, seca de 2023 | Captura cerca de 40% menor, venda de farinha 80% menor, o preço do surubim dobrou e 209 botos morreram (Fleischmann e outros, 2025) confirmado |
O seguro-defeso pesa, mas não alcança todos. No ciclo 2025/26, ele pagou R$ 34,1 milhões a 10.638 pescadores do Acre, cerca de R$ 3.207 por pessoa parcial. Isso é menos da metade dos 21.777 com registro ativo. Para quem recebe, o seguro é entre um quinto e metade da renda do ano, conforme o número de parcelas; essa conta é estimativa.
Não há fala literal de pescador acreano em estudo publicado. E as pescadoras são 47,5% do registro no Acre, mas o único estudo local não ouviu nenhuma. Ouvir as colônias, com método e por escrito, é o passo que mais fortalece o argumento.
O que a lei não enxerga
A lei do seguro-defeso supõe que, fora dos quatro meses de defeso, o rio sustenta a família. Por isso proíbe qualquer renda que não venha da atividade pesqueira, de um defeso ao seguinte. A página Seguro-defeso e projetos de renda detalha essa regra.
A própria lei já admitiu duas vezes que essa suposição pode falhar.
- Exceção para quem não consegue pescar. A Lei 10.779/2003, art. 2º, § 12, ressalva "os casos justificados de impossibilidade do exercício da atividade pesqueira" confirmado. Mas a exceção só dispensa o relatório de venda; a proibição de outra renda continua. E o conselho que regula o seguro nunca definiu o que é caso justificado.
- Auxílio que não conta como renda. As medidas provisórias das secas de 2023 e 2024 pagaram R$ 2.640 e R$ 2.824 e disseram que o auxílio "não será considerado fonte de renda" para o seguro (MP 1.192/2023; MP 1.277/2024) confirmado. A de 2023 incluiu os 22 municípios do Acre. Não houve auxílio em 2025 nem em 2026.
Na prática, os pescadores de Cruzeiro do Sul vivem dos bicos que a regra do seguro trata como "outra fonte de renda". A regra não impede o bico: empurra o pescador para a informalidade e para a declaração falsa.
A proposta
Uma saída proporcional, que mantém a pesca como principal meio de vida e usa réguas que a lei brasileira já conhece. Redação sugerida pela investigação, para a Lei 10.779; é proposta, não norma.
- Não é outra renda o beneficiamento e a venda do próprio peixe, pelo preço ou pelas sobras da cooperativa. Também não é o cultivo familiar de peixe, que a Lei 11.959/2009 já chama de atividade pesqueira. Nem o pagamento por serviço ambiental ligado à pesca, o trabalho de até 120 dias por ano e os auxílios de emergência.
- Teto: cultivo e trabalho somados até um salário mínimo de média por mês.
- Emergência: em município com seca ou cheia reconhecida pela União, cai o limite de dias, e o período conta como caso justificado de impossibilidade de pescar.
- Fim do corte automático: renda declarada e registrada nas bases não basta, sozinha, para negar ou cancelar o seguro.
A régua de 120 dias é a que a Previdência já usa para o segurado especial (Lei 8.213/1991, art. 11, § 9º, III). As Diretrizes da FAO para a pesca de pequena escala, no item 6.8, recomendam apoiar "oportunidades complementares e alternativas de geração de rendimento" (FAO) confirmado.
| Caminho | Como |
|---|---|
| Rápido | Pedir ao conselho que regula o seguro (Codefat) que defina "caso justificado de impossibilidade" e diga quando seca, cheia e falta de peixe se enquadram. A lei garante às entidades de pescadores voz na elaboração dessas normas. |
| Legislativo | Emenda ao PL 7.144/2025, que está na Comissão de Trabalho da Câmara. O substitutivo aprovado na Comissão de Agricultura já admite trabalho temporário no defeso até um salário mínimo, mas não alcança cultivo nem cooperativa. |
O que medir para sustentar a tese
- Desembarque de peixe por município e por espécie, contado nas colônias e nas feiras.
- Captura por esforço: quilos por viagem, por dia e por litro de combustível.
- Renda da família pescadora por fonte, com as mulheres incluídas.
- Vazão dos rios e atos de emergência, acompanhados por três ciclos de defeso.
O que está comprovado e o que é tendência
| Conclusão | Grau |
|---|---|
| Vazante mais baixa e mais longa no alto rio Acre e no Purus; recordes em 2024 | comprovado |
| Desmatamento alto desde 2019 e pastagem em alta contínua | comprovado |
| Tambaqui oficialmente vulnerável; dourada em queda no Madeira | comprovado |
| Pescadores da região relatam menos peixe e renda menor, e vivem de bicos | comprovado |
| Vazantes extremas mais frequentes e cheias maiores nos próximos anos | tendência provável |
| Captura menor no Acre até 2029 pela sequência de secas de 2023 a 2026 | tendência provável |
| Queda do peixe no Acre medida em série própria | não medido |
| Menos chuva no Acre | não comprovado |
Fontes
- ANA, séries históricas de cota e vazão (ServiceANA), estações 13600002, 13550000, 13470000 e outras, consultadas em 05/10/2026
- Inpe, Prodes, taxas anuais por estado
- MapBiomas, Coleção 11, cobertura por estado
- World Weather Attribution, seca da Amazônia de 2023
- Espinoza e outros, 2024, anomalias de temperatura na seca de 2023
- Castello, Isaac e Thapa, 2015, pulso de inundação e captura
- Arantes e outros, 2019, floresta alagada e biomassa de peixes
- Van Damme e outros, 2019, dourada no alto Madeira
- Ministério do Meio Ambiente, tambaqui vulnerável
- Fiocruz e parceiros, mercúrio no peixe consumido em seis estados, 2023
- Castro e outros, 2016, mercúrio no Purus
- Santos e Oliveira, 2025, pescadores de Cruzeiro do Sul
- Pinto e outros, 2022, renda da pesca no Madeira
- Fleischmann e outros, 2025, seca de 2023 em Tefé
- Medida Provisória 1.192/2023, auxílio da seca
- FAO, Diretrizes para a pesca de pequena escala
- Os relatórios completos das seis frentes, com todas as fontes e o que não foi encontrado, ficam no arquivo de trabalho do dossiê.